Como calcular o valor da consulta em 4 passos
1. Some os custos fixos do mês
Tudo o que você paga com ou sem paciente: aluguel e condomínio, salários e encargos da equipe, contador, sistemas de agenda e prontuário, marketing, energia, internet, anuidade do conselho, seguros. Use a média dos últimos meses — o extrato bancário e a fatura do cartão da empresa mostram o que de fato saiu.
2. Inclua o seu pró-labore
Defina quanto você quer retirar por mês pelo seu trabalho e some aos custos fixos. Isso separa o que é remuneração do médico do que é lucro da empresa. Sem esse passo, qualquer preço parece lucrativo.
3. Divida pelas consultas que realmente acontecem
Calcule a capacidade da agenda (horas por semana × semanas trabalhadas no ano ÷ duração da consulta ÷ 12) e aplique a ocupação real, descontando faltas e horários vagos. Some o custo variável de cada atendimento (insumos, materiais descartáveis). O resultado é o custo por consulta.
4. Transforme custo em preço
Impostos e taxa de cartão incidem sobre o preço, não sobre o custo. Por isso o custo é dividido por (1 − impostos − cartão − margem). Com margem zero, você tem o preço mínimo: abaixo dele, cada consulta tira dinheiro do consultório.
Exemplo: consultório individual
São os mesmos valores que aparecem na calculadora ao abrir a página.
| Custos fixos do consultório | R$ 9.950 |
|---|---|
| Pró-labore desejado | R$ 15.000 |
| Agenda: 30 h/semana, consultas de 30 min, 46 semanas/ano | 230 horários/mês |
| Ocupação real de 70% | 161 consultas/mês |
| Custo por consulta: R$ 24.950 ÷ 161 + R$ 10 de insumos | R$ 164,97 |
| Impostos (6%) + cartão (3% em 60% das consultas) | 7,8% do preço |
| Preço mínimo: R$ 164,97 ÷ (1 − 0,078) | R$ 178,93 |
| Preço com 20% de margem: R$ 164,97 ÷ (1 − 0,078 − 0,20) | R$ 228,49 |
| Preço com 30% de margem | R$ 265,22 |
Se esse médico cobra R$ 180, sobra menos de 1% de cada consulta e ele precisa de 160 consultas por mês só para empatar — praticamente toda a agenda possível. Para ter 20% de margem, a consulta precisaria custar cerca de R$ 230.
Valores ilustrativos, apenas para explicar a lógica. Não representam um cliente real.
4 erros comuns ao definir o preço da consulta
- Copiar o preço do colega ou da região. O preço de mercado diz quanto o paciente aceita pagar — não quanto o seu consultório precisa cobrar. Dois médicos com o mesmo preço podem ter resultados opostos.
- Esquecer o próprio salário. Se o pró-labore não entra no custo, o preço “fecha a conta” e o médico trabalha de graça. É o erro mais comum — e o que mais distorce o valor.
- Contar a agenda cheia. Faltas, remarcações e horários vagos fazem parte da rotina. Ratear o custo por consultas que não acontecem gera um preço baixo demais.
- Somar imposto e cartão ao custo. Impostos e taxa de cartão são percentuais do preço. Somar 6% sobre o custo dá um valor menor do que o necessário — o certo é dividir o custo por (1 − percentuais).
Qual imposto considerar
Para médicos que atendem como pessoa jurídica no Simples Nacional, a alíquota depende do Fator R: quando a folha de pagamento dos últimos 12 meses — incluindo o pró-labore — chega a 28% da receita bruta, a atividade é tributada pelo Anexo III, com alíquota inicial de 6%; abaixo disso, pelo Anexo V, que começa em 15,5% (Lei Complementar 123/2006). As alíquotas efetivas sobem conforme o faturamento, e no Lucro Presumido a conta é diferente. Use sempre a alíquota efetiva que o seu contador informar — e revise o cálculo com a transição da reforma tributária (CBS e IBS).
O pró-labore, além de entrar no preço, pode influenciar o próprio imposto pelo Fator R. Essa é uma decisão para tomar com o contador, com os números do consultório na mesa.
E a consulta de convênio?
O convênio define o valor em contrato. O que a calculadora mostra é quanto cada consulta custa para você. Se o convênio paga menos que esse custo, o atendimento particular está subsidiando o convênio — e ainda há glosas e prazo de recebimento maior. Saber o custo por consulta é o que permite decidir com clareza quais convênios manter.
Para procedimentos, que têm tempo, materiais e laboratório diferentes da consulta, o cálculo muda — veja como precificar procedimentos na clínica.
Depois de definir o preço
O preço é uma estimativa. Quem confirma se ele funciona é o fechamento do mês: uma DRE gerencial mostra se a margem planejada apareceu no resultado. Revise o cálculo sempre que custos, agenda ou impostos mudarem — e pelo menos uma vez por ano.
Quer ver o outro lado da mesma conta — quantas consultas por mês você precisa para empatar com o preço que cobra? Use a calculadora de ponto de equilíbrio.