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Lucro, preço e custos

Por que minha clínica fatura e não sobra dinheiro? As 8 causas mais comuns

Por Osmair Junior

Revisão: Marcos Friske

Publicado em

9 min de leitura

Resposta direta

Quando a clínica fatura bem e não sobra dinheiro, a causa costuma estar em um de dois lugares. No resultado: custos, repasses e impostos consomem quase todo o faturamento. Ou no caixa: a clínica até tem lucro, mas o dinheiro sai em retiradas, parcelas de dívida ou despesas pessoais, ou ainda não entrou (convênio e cartão parcelado). Descobrir qual dos dois é o seu caso vem primeiro, porque o remédio é diferente.

“Faturamos R$ 200 mil no mês e eu não sei onde o dinheiro foi parar.” Quase nunca isso quer dizer que alguém está desviando dinheiro. Quase sempre quer dizer que ninguém juntou os números do mês num lugar só.

A boa notícia: as causas são conhecidas, e cada uma pode ser verificada com relatórios que a clínica já tem.

Faturamento, lucro e caixa são três números diferentes

Faturar R$ 200 mil por mês não significa que sua clínica está dando lucro. E dar lucro não significa que vai sobrar dinheiro na conta.

NúmeroPergunta que respondeOnde aparece
FaturamentoQuanto a clínica vendeu ou produziu no mês?Sistema de gestão, notas, guias de convênio
Lucro (resultado)Depois de pagar tudo o que a operação consome, quanto ficou?DRE gerencial
CaixaQuanto dinheiro de fato entrou e saiu da conta?Extrato e fluxo de caixa

Na maioria das clínicas, só o primeiro número é acompanhado de perto. O segundo chega meses depois, pelo contador, no formato fiscal — não no gerencial. O terceiro é olhado no extrato, sem projeção. Por isso a pergunta certa não é “por que não sobra?”, e sim: o problema é de lucro ou de caixa?

  • Problema de lucro: a operação não gera sobra suficiente. O remédio está em preço, custos, repasses e mix de serviços.
  • Problema de caixa: a operação gera sobra, mas o dinheiro sai antes, sai para outro lugar ou entra depois. O remédio está em retiradas, dívidas, prazos e organização.

A diferença entre olhar pelo atendimento e olhar pelo dinheiro está explicada em regime de caixa x competência. Para a visão completa da rotina, veja o guia de gestão financeira para clínicas.

Do faturamento ao dinheiro que sobra: um exemplo

Exemplo ilustrativo

Clínica médica com particular, convênio e repasse a profissionais. Valores hipotéticos, que não representam média de mercado. Impostos variam conforme o regime tributário — quem calcula os da sua clínica é o contador.

EtapaValor no mêsSobra acumulada
Faturamento (atendimentos realizados)R$ 200.000R$ 200.000
(−) Glosas e valores não recebidosR$ 6.000R$ 194.000
(−) Impostos sobre a receitaR$ 22.000R$ 172.000
(−) Taxas de cartão e antecipaçãoR$ 5.000R$ 167.000
(−) Repasses a profissionaisR$ 60.000R$ 107.000
(−) Insumos e materiaisR$ 14.000R$ 93.000
(−) Folha e encargos da equipeR$ 38.000R$ 55.000
(−) Aluguel, sistemas e demais fixosR$ 25.000R$ 30.000
= Lucro operacionalR$ 30.000 (15%)
(−) Parcelas do financiamento do equipamentoR$ 9.000R$ 21.000
(−) Retiradas dos sóciosR$ 35.000− R$ 14.000

A clínica dá lucro — R$ 30 mil — e mesmo assim a conta fecha o mês R$ 14 mil mais baixa. Dois motivos: as retiradas (R$ 35 mil) são maiores que o lucro, porque foram definidas olhando o faturamento; e a parcela do financiamento sai do caixa todo mês sem aparecer como despesa na DRE (pagar o valor principal de uma dívida reduz o caixa, não o lucro).

Olhando só o faturamento, a conclusão seria “precisamos faturar mais”. Na verdade, é preciso ajustar as retiradas ao resultado e planejar a dívida.

As 8 causas mais comuns

1. Retiradas maiores que o lucro

Sinal: todo mês a conta termina um pouco mais baixa e, de tempos em tempos, é preciso usar o cheque especial ou antecipar recebíveis.
Como verificar: some tudo o que os sócios retiraram nos últimos 6 meses (pró-labore, distribuição e despesas pessoais pagas pela clínica) e compare com o lucro operacional do mesmo período.

A retirada saudável parte do lucro, não do faturamento. Veja a diferença entre pró-labore e distribuição de lucros.

2. Dinheiro da clínica e dinheiro pessoal misturados

Sinal: escola, cartão pessoal ou carro saem da conta da clínica “porque era mais fácil”.
Como verificar: pegue o extrato de um mês e marque cada saída sem relação com a operação. O total costuma surpreender.

Enquanto as contas estiverem misturadas, nenhum relatório mostra o lucro real. Veja como funciona a separação de PF e PJ em BPO Financeiro para médicos.

3. O dinheiro ainda não entrou: prazos de convênio e cartão

Sinal: o mês foi bom de agenda, mas a conta não acompanhou — e o aperto aparece justamente quando a clínica cresce.
Como verificar: liste quanto há a receber de convênios e de parcelas de cartão nos próximos 90 dias e compare com as contas do mesmo período.

O convênio paga semanas ou meses depois do atendimento; o cartão parcelado entra parcela a parcela. Repasses, folha e aluguel vencem antes. Quanto mais a clínica cresce, mais dinheiro fica preso nesse intervalo. O fluxo de caixa projetado mostra o aperto antes que ele aconteça.

4. Glosas e inadimplência que ninguém acompanha

Sinal: existe diferença entre o faturado e o que entrou, mas ninguém sabe dizer de quanto.
Como verificar: compare, por lote, o valor enviado a cada convênio com o valor pago. Para particulares, liste os pagamentos atrasados há mais de 30 dias.

Glosa não recorrida é receita perdida. Veja como medir o índice em glosa de convênio: o impacto no caixa.

5. Preço que não cobre o custo real

Sinal: a agenda vive cheia, mas trabalhar mais não aumenta a sobra.
Como verificar: calcule o custo de uma hora de atendimento (custos fixos ÷ horas disponíveis) e compare com o que sobra de cada consulta ou procedimento depois de impostos, taxas e repasse.

Se o preço foi definido “pelo mercado” ou nunca foi reajustado, essa costuma ser a causa principal. A calculadora do valor da consulta médica faz essa conta com os seus números.

6. Repasses calculados sobre a base errada

Sinal: o percentual de repasse parece justo, mas pesa mais do que deveria no resultado.
Como verificar: confira se o repasse é calculado sobre o bruto ou sobre o líquido (depois de glosas, impostos e taxas) e se é pago pelo produzido ou pelo recebido.

Pagar 50% sobre o bruto de um atendimento glosado é pagar repasse sobre dinheiro que nunca entrou. Os modelos estão em repasse médico: como calcular e conferir.

7. Custos fixos que cresceram mais que a receita

Sinal: a clínica contratou, mudou de sala, assinou sistemas novos — e o faturamento subiu menos que os custos.
Como verificar: compare os custos fixos de hoje com os de 12 meses atrás, linha a linha, e compare esse crescimento com o do faturamento.

Custo fixo é decidido uma vez e pago todo mês. Cada novo fixo aumenta o número de atendimentos necessários só para empatar — o ponto de equilíbrio. Faça a conta da sua clínica na calculadora de ponto de equilíbrio.

8. Taxas de cartão e antecipação automática

Sinal: o valor que cai na conta é sempre menor que o vendido, e ninguém sabe exatamente quanto.
Como verificar: veja no portal da maquininha o total de taxas e de antecipação dos últimos 3 meses e confira se a antecipação automática está ligada.

Entenda a taxa de desconto (MDR) e a antecipação de recebíveis. Antecipar de vez em quando resolve um aperto; antecipar sempre, sem decidir, é uma despesa fixa disfarçada.

Teste rápido: você consegue responder a estas 10 perguntas?

Responda com números, não com “mais ou menos”:

  1. Quanto a clínica lucrou (não faturou) no mês passado?
  2. Qual é a margem dos três serviços que mais vendem?
  3. Quanto os sócios retiraram nos últimos 6 meses — e isso coube no lucro?
  4. Quanto há a receber de convênios e cartão nos próximos 90 dias?
  5. Qual foi o índice de glosa do último trimestre?
  6. Quantos atendimentos por mês a clínica precisa só para pagar as contas?
  7. Os repasses são calculados sobre o bruto ou sobre o líquido?
  8. Quanto a clínica pagou de taxas de cartão e antecipação no último trimestre?
  9. A conta da clínica paga alguma despesa pessoal?
  10. Qual será o saldo da conta daqui a 4 semanas?
Respostas com númeroO que significa
8 a 10A gestão financeira está estruturada. O próximo passo é usar os números para decidir preço, mix e expansão.
4 a 7Há pontos cegos importantes. As causas ligadas às perguntas sem resposta são o lugar mais provável do dinheiro perdido.
0 a 3A clínica está decidindo sem informação. Não é falta de esforço: é falta de uma rotina que transforme extratos, guias e relatórios em números.

Por onde começar

  1. Separe as contas da clínica e as pessoais, se ainda não estiverem separadas.
  2. Monte uma DRE gerencial dos últimos 3 meses para saber se o problema é de lucro ou de caixa.
  3. Ajuste as retiradas ao resultado, não ao faturamento.
  4. Projete o caixa das próximas 13 semanas.
  5. Ataque a maior causa primeiro. Raramente são as oito ao mesmo tempo.

Se a DRE mostrar que o problema é de lucro, o passo seguinte é entender como saber se a clínica é lucrativa e quanto ela deveria lucrar — e depois como aumentar a lucratividade.

Se você não conseguiu responder metade do teste, o Diagnóstico Financeiro gratuito faz esse levantamento com os números da sua clínica e mostra onde está a diferença entre o que entra e o que sobra.

Aviso de escopo: conteúdo informativo. Somos uma empresa de BPO Financeiro e não prestamos serviços contábeis, tributários ou jurídicos. Para decisões nessas áreas, consulte seu contador ou advogado.

Fontes e referências

  1. Lei nº 15.270/2025 — tributação de lucros e dividendos (Planalto)

Ainda com dúvida?

Perguntas relacionadas

Minha clínica pode dar lucro e mesmo assim faltar dinheiro?

Pode. Lucro é o que sobra da operação; o caixa também sente retiradas, parcelas de financiamento e prazos de recebimento. Uma clínica com R$ 30 mil de lucro que retira R$ 35 mil e paga R$ 9 mil de financiamento fecha o mês com menos dinheiro do que começou.

Quanto o dono da clínica pode retirar por mês?

Não existe um percentual fixo. A referência segura é retirar dentro do lucro apurado, mantendo uma reserva para os meses fracos e para os compromissos dos próximos meses. A divisão entre pró-labore e distribuição de lucros tem efeitos tributários e deve ser definida com o contador.

Crescer pode piorar o caixa da clínica?

Pode, principalmente quando o crescimento vem de convênios ou de vendas parceladas no cartão. Repasse, insumos e equipe são pagos antes de o dinheiro do atendimento entrar. Crescer exige capital de giro.

Como descobrir onde a clínica está perdendo dinheiro?

Comparando, para o mesmo período, o faturamento, a DRE gerencial e o extrato bancário. A diferença entre o que foi faturado e o que sobrou na conta se explica por glosas, impostos, taxas, repasses, custos, retiradas e dívidas. O que não se explica é o ponto a investigar.

Aumentar o preço resolve?

Só se a causa for preço. Se o problema estiver nas retiradas, nas dívidas ou no prazo de recebimento, aumentar o preço ajuda pouco. Por isso vale descobrir a causa antes de agir.

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